25/09/2019 Mercado

Esculturas mobiliárias

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Em busca de mais contato com a natureza e de um estilo de vida mais rústico, o porto-alegrense Hugo França decidiu morar, no início dos anos 1990, em Trancoso (BA), onde o design entrou em sua trajetória a partir da convivência com os índios pataxós. Na região, ele pôde observar como os pataxós construíam suas próprias canoas e ferramentas com a madeira da floresta e conheceu as propriedades do pequi, principal material de suas esculturas mobiliárias. “Essa madeira é oleosa, o que a torna mais resistente à água e traz muito mais durabilidade para minhas criações, que ficam livres de cupins”, explica. 

Os 15 anos que ficou na Bahia despertaram ainda em França a preocupação com o desperdício dos elementos naturais. “Assisti ao final da grande devastação da Mata Atlântica no Sul daquele estado. Era tão absurdo! Vi a quantidade de detritos que as queimadas e as extrações irresponsáveis deixaram para trás e entendi que aquilo era também um recurso, talvez um meio eficaz de falar sobre a importância do uso consciente do que a natureza oferece”, recorda. Esse cenário acabou por apurar seu olhar para aquilo que era considerado inútil e passar a transformar raízes desenterradas, troncos ocos, toras maciças e outros resíduos florestais ou urbanos em peças como bancos, mesas, cadeiras, balanços, esculturas, gamelas e aparadores, que impactam por seus formatos, texturas e dimensões. A maior coleção de peças do artista – são mais de 100 – pode ser vista nos jardins do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG).

“O que mais inspira meu trabalho são as formas das árvores. Interfiro o mínimo possível para que a memória de cada uma delas permaneça. Cada tronco ou raiz é uma nova história”, ressalta. O designer revela que não costuma fazer projetos antes de analisar a madeira e que é dela que surge o desenho final da obra. No seu processo criativo, é o material que o instiga e estimula o olhar e o raciocínio. A procura por essas matérias-primas começa pela busca da raiz de pequi na mata da Bahia, que depois é levada para um dos ateliês de França em Trancoso. Algumas vezes, conta ele, o formato das esculturas mobiliárias é visualizado na hora e, em outras, leva um tempo para ele surgir ou muda durante o seu desenvolvimento.

Com o material em mãos, tem início a idealização do produto e são feitas as primeiras marcações com giz para, em seguida, ser realizado o delicado trabalho com a motosserra para dar à madeira seus primeiros contornos. Na sequência, vem o acabamento, no qual são lapidados poucos detalhes, a peça é lavada, lixada e recebe verniz. “Daí ela está pronta!”, diz França ao reforçar que cerca de 90% do seu trabalho é feito com o pequi-vinagreiro, espécie que nasce apenas na região da Mata Atlântica, entre o Sul da Bahia e o Norte do Espírito Santo. O designer gosta de destacar a longevidade do pequi, uma árvore que se torna adulta com 200 anos e pode viver até os 1.200 anos, algo raro na natureza e como matéria-prima. “Lidar com essa madeira ancestral é um trabalho arqueológico para mim”, salienta.

França comenta também que o pequi possui características que o torna inútil para a movelaria tradicional (texturas, buracos e formas) e exige um manuseio muito específico. “Gosto de explorar caminhos contrários ao da indústria”, frisa. O designer acredita que há um grande movimento mundial não só de valorização da madeira, mas de ter um olhar mais criterioso na utilização e no processo de produção, dando ênfase à origem sustentável. 

 

Fonte: Melnick Even Magazine – Interna Projetos Editoriais
Fotos: André Godoy